Conhecido por diversos apelidos ao longo da história, como Los Blancos, Vikings e Galácticos, o Real Madrid é amplamente conhecido pelo mais icônico de todos: "merengues". No entanto, o que muitos torcedores desconhecem é que esse apelido doce, inspirado em uma sobremesa, carrega uma história rica e curiosa que remonta aos primórdios do clube e à influência marcante de um jornalista emblemático.
A construção de um império europeu.
Tudo começou em 06 de março de 1902, data oficial da fundação do Real Madrid. Na ocasião, foi criada uma Junta Diretiva com a missão de organizar os primeiros passos do novo clube, que era escolher seu primeiro presidente e definir o uniforme que representaria a nova equipe da capital espanhola.
O empresário catalão Juan Padrós foi eleito o primeiro presidente do clube, liderando o projeto de fundação com uma visão moderna e inspirada nas tradições esportivas da Inglaterra, berço do futebol. A escolha do uniforme também refletiu essa influência britânica. Inspirado no clube londrino, Corinthian FC (o mesmo que, anos depois, inspiraria o nome do Sport Club Corinthians Paulista, no Brasil) o Real Madrid adotou a camisa branca, que era completada com calção e meiões azul-escuros.
Em 1955, o Real Madrid tomou uma decisão que selaria de vez a sua identidade visual: o uniforme passaria a ser completamente branco, camisa, calção e meiões. A mudança não era apenas estética, mas simbólica, pois coincidia com o início de uma era de ouro que marcaria o clube para sempre.
Real Madrid vestiu-se de glória.
No ano seguinte, em 1956, o clube conquistaria a primeira edição da então recém-criada Copa dos Campeões da Europa, competição que, anos mais tarde, se tornaria a atual UEFA Champions League. Sob o comando de um esquadrão mágico liderado por Alfredo Di Stéfano, o Real Madrid venceu as cinco primeiras edições do torneio, consolidando-se como o maior time da Europa naquele período.
Nos bastidores, quem orquestrava essa transformação era um dos presidentes mais visionários e respeitados da história do clube: Santiago Bernabéu. Sua gestão não só modernizou a estrutura do clube e seu estádio (que na época era chamado de Estádio Chamartín), como também ajudou a construir o imaginário em torno do que é "ser Real Madrid".
Foi dele uma das frases mais emblemáticas sobre a simbologia da camisa branca:
A camisa do Real Madrid é branca. Ela pode se sujar de lama, suor e até de sangue, mas nunca de vergonha.
Matías Prats: a voz que deu nome ao branco.
Com o branco já consolidado como símbolo do clube dentro e fora de campo, faltava apenas um elemento para transformar a imagem do Real Madrid em um mito completo: a palavra certa na boca certa.
Foi aí que entrou em cena Matías Prats Cañete, um dos mais influentes jornalistas e locutores esportivos no século XX. Dono de uma voz inconfundível e de um talento único para descrever partidas com emoção e informação, Prats tornou-se um verdadeiro cronista da era dourada do futebol espanhol. As pessoas costumavam dizer que Matías não apenas narrava jogos, e sim contava histórias.
Durante as transmissões dos anos 1950 e 1960, Prats passou a se referir ao Real Madrid como "los merengues", comparando a equipe à tradicional sobremesa clara e leve feita de claras de ovo batidas: o merengue. A metáfora fazia alusão direta ao uniforme completamente branco, mas também sugeria algo refinado, técnico, quase artístico. O termo pegou, e rapidamente passou a ser repetido por torcedores, rivais, jornais e outros radialistas.
De uma simples metáfora popularizada no rádio, o termo ganhou vida própria e se transformou em parte essencial da identidade madridista, ao lado dos títulos, dos ídolos eternos e da mística que cerca o clube. E assim, ao ouvirmos “Merengues” ecoar em estádios, rádios ou manchetes, ouvimos também um legado. Doce, sim, mas forjado com suor, títulos e uma história que poucos clubes no mundo podem contar.